O fim da escala 6x1 ainda depende do Senado. Veja o que a PEC prevê e os impactos da jornada sobre fadiga, ergonomia, NR-1 e PGR.
Resposta direta: a escala 6x1 ainda não acabou
A Câmara dos Deputados aprovou em 27 de maio de 2026, em dois turnos, a PEC 221/2019, que propõe reduzir a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, distribuir o trabalho em até cinco dias e assegurar dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial. No segundo turno, foram 461 votos favoráveis e 19 contrários.
Isso não tornou a mudança definitiva. Em 29 de agosto de 2026, a proposta está no Senado: recebeu relatório favorável na Comissão de Constituição e Justiça, mas ainda depende da deliberação da comissão e de aprovação em dois turnos pelo Plenário, com o quórum constitucional aplicável. Se o Senado alterar o mérito, o texto poderá voltar à Câmara.
Portanto, empresas e trabalhadores não devem agir como se a nova jornada já estivesse vigente. Até eventual promulgação, continuam valendo as regras atuais, inclusive o limite constitucional de oito horas diárias e 44 horas semanais, ressalvadas as hipóteses legais e negociais aplicáveis.
O que o texto em tramitação prevê
O texto aprovado pela Câmara prevê uma transição em duas etapas. Se for promulgado sem mudanças, o limite semanal cairá para 42 horas depois de 60 dias, já com dois dias de repouso semanal remunerado. Doze meses depois dessa primeira etapa, o limite chegará a 40 horas.
A proposta preserva a remuneração e mantém espaço para compensação e negociação coletiva nos termos do texto. Um dos repousos deve ocorrer preferencialmente aos domingos. Esses elementos descrevem uma proposta em tramitação, e não uma regra que já possa ser aplicada como obrigação atual.
Também é importante separar jornada individual de funcionamento da empresa. Hospitais, indústrias, supermercados, restaurantes e outros serviços podem continuar operando todos os dias, desde que organizem equipes e descansos conforme o regime jurídico aplicável. O debate não trata de fechar a operação durante dois dias da semana.
- Hoje: limite constitucional de até 44 horas semanais.
- Texto proposto: 42 horas após 60 dias da promulgação.
- Etapa seguinte: 40 horas após o período de transição previsto.
- Situação em 29/08/2026: proposta ainda pendente no Senado.

Escala 6x1, jornada de 44 horas e escala 5x2 não são sinônimos
Escala 6x1 descreve a distribuição: seis dias de trabalho para um de descanso. Já 44 horas é o limite semanal geral previsto atualmente na Constituição. Embora as duas ideias apareçam juntas com frequência, uma trata de dias e a outra de duração.
O mesmo vale para 5x2 e 40 horas. Trabalhar cinco dias e descansar dois não informa, sozinho, a duração diária, os turnos, as horas extras, a previsibilidade da escala ou a recuperação entre jornadas. Por isso, não basta trocar o nome da escala para concluir que o trabalho se tornou saudável.
A proposta em tramitação combina as duas mudanças — limite de 40 horas e dois repousos —, mas regimes específicos, atividades contínuas e negociações coletivas devem ser analisados no texto final e nas regras aplicáveis a cada setor.
Por que jornada é tema de Saúde e Segurança do Trabalho
Jornada, turnos, trabalho noturno, pausas e tempo de recuperação afetam a capacidade física e cognitiva de executar tarefas. O NIOSH destaca que a fadiga relacionada ao trabalho pode reduzir atenção, concentração, memória de curto prazo, julgamento e tempo de reação.
Fadiga não depende apenas do número semanal de horas. Horários irregulares, noites, deslocamentos, calor, exigência física ou mental, sono insuficiente e sequência de turnos podem produzir exposições muito diferentes entre duas pessoas com a mesma carga contratual.
A questão técnica não é escolher uma escala como saudável e outra como perigosa por definição. É identificar quando o desenho do tempo de trabalho compromete recuperação, desempenho seguro e saúde — e como esse desenho interage com as demais condições da atividade.

O que as evidências dizem sobre jornadas longas e saúde
Estudos sobre trabalho prolongado apontam associações com erros, lesões e agravos. Essas associações não significam que um acidente será causado automaticamente por determinada escala, pois setor, tarefa, turno, pausas, sono e controles interferem no resultado.
A estimativa conjunta da OMS e da OIT atribuiu 745 mil mortes por acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquêmica, em 2016, à exposição global a jornadas de 55 horas ou mais por semana. Esse limiar não deve ser usado para afirmar que a jornada brasileira de 44 horas produz o mesmo risco; ele demonstra que tempo de trabalho excessivo é uma variável relevante de saúde pública.
Da mesma forma, dados do NIOSH sobre turnos prolongados vêm de contextos e populações específicos. Eles apoiam a inclusão da fadiga na análise, mas não autorizam transformar percentuais internacionais em previsão automática para toda empresa brasileira.
Reduzir horas não reduz riscos automaticamente
Uma jornada menor pode ampliar a recuperação e diminuir exposições ligadas ao tempo. Mas o benefício pode desaparecer se a empresa tentar entregar exatamente a mesma demanda com menos pessoas, menos pausas e maior velocidade.
Comprimir 44 horas de demanda em 40 pode aumentar ritmo, carga física, exigência cognitiva, atalhos operacionais, conflitos e horas extras. A redução formal da jornada não compensa uma organização que transfere toda a diferença para metas e pressão.
Por isso, uma eventual transição precisa revisar capacidade, processos, dimensionamento, desperdícios, tecnologia e prioridades. A pergunta preventiva é se o trabalho foi redesenhado ou apenas acelerado.
- aumento de cadência e metas
- supressão informal de pausas
- mais horas extras e trocas de turno
- manutenção ou inspeções adiadas
- sobrecarga física e cognitiva
- menor tempo para procedimentos seguros
A conexão com a NR-17 e a ergonomia
A NR-17 exige que a organização do trabalho considere elementos como normas de produção, modo operatório, exigência de tempo, ritmo, conteúdo das tarefas e aspectos cognitivos capazes de comprometer segurança e saúde.
Uma alteração de escala pode mudar metas diárias, composição das equipes, simultaneidade de atividades, pausas, turnos, logística e pressão de prazo. Esses efeitos pertencem à análise ergonômica; não são apenas uma decisão de folha de pagamento ou de departamento jurídico.
A avaliação precisa chegar ao trabalho real. Uma escala bem desenhada na planilha pode falhar no campo se faltarem pessoas na troca de turno, se o pico de demanda ficar concentrado ou se a recuperação entre jornadas for insuficiente.
Jornada, riscos psicossociais, NR-1 e PGR
Desde 26 de maio de 2026, a redação vigente do capítulo 1.5 da NR-1 inclui expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no GRO. O foco está nas condições e na organização do trabalho, não na investigação da vida privada ou no diagnóstico clínico dos empregados.
A escala 6x1 não deve ser registrada automaticamente como um risco psicossocial. É necessário avaliar como jornada, previsibilidade, mudanças de horário, demandas, recursos, autonomia, apoio, ritmo e recuperação funcionam para os grupos expostos.
Se uma mudança de escala alterar processos, equipes, turnos, cadência ou outras condições capazes de modificar riscos existentes ou introduzir novos riscos, a avaliação precisa ser revista. Essa é a conexão entre a transição da jornada e a gestão de mudanças no GRO/PGR.
- Há previsibilidade e antecedência na escala?
- O descanso permite recuperação compatível com a atividade?
- As horas extras são habituais?
- A demanda cabe no efetivo e no tempo disponíveis?
- A mudança aumentará ritmo, conflitos ou sobrecarga?
- Os controles continuam eficazes em todos os turnos?
O que experiências internacionais ensinam — e o que não provam
Experiências internacionais usam modelos diferentes. A França possui duração legal de 35 horas para o trabalho em tempo integral, mas mantém regras para horas adicionais. Chile e Colômbia adotaram reduções graduais. A Islândia realizou experimentos e negociações, e não uma imposição simples de quatro dias para toda a economia.
No piloto britânico acompanhado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, 61 organizações reduziram em torno de 20% das horas por seis meses, sem corte salarial. Entre os participantes, 71% relataram menos burnout e 39% menos estresse. Os resultados são relevantes, mas vieram de organizações voluntárias que aceitaram testar e reorganizar processos.
Nenhum desses casos prova que o mesmo desenho funcionará igualmente em hospital, obra, indústria, supermercado ou transporte. A lição transferível é outra: redução de jornada precisa ser acompanhada por redesenho do trabalho, participação e acompanhamento de resultados.
Setores contínuos podem operar, mas precisam redesenhar cobertura
O eventual fim da escala 6x1 não significa impedir o funcionamento contínuo. Significa distribuir jornadas individuais e repousos de outra forma, respeitando o texto definitivo, a legislação setorial e a negociação coletiva aplicável.
Hospitais precisam preservar segurança assistencial e passagem de turno. Transporte e vigilância exigem atenção especial à fadiga e ao trabalho noturno. Comércio e alimentação precisam evitar que menos horas produzam filas, redução de pausas ou sobrecarga. Na indústria, mudanças não podem comprometer manutenção, inspeções e comunicação entre equipes.
Na construção, o risco pode aparecer na combinação entre prazo contratual, menos horas disponíveis e intensificação. Se cronograma, método e efetivo não forem revistos, pode aumentar a simultaneidade de frentes e a pressão por atalhos.
O que empresas podem preparar sem antecipar uma obrigação
A proposta ainda não está em vigor, mas cenários podem ser estudados sem anunciar uma mudança como definitiva. Comece mapeando funções, dias, turnos, jornadas, horas extras e áreas que dependem de cobertura contínua.
Em seguida, confronte capacidade e demanda. Identifique tarefas de baixo valor, gargalos, retrabalho, picos, necessidades de contratação e oportunidades de automação. O objetivo não é criar um plano genérico de prazo fixo, e sim produzir decisões adequadas ao contexto e ao estágio legislativo.
Inclua SST, ergonomia, operação, RH, jurídico e trabalhadores na análise. A escala não pode ser tratada isoladamente dos riscos, dos acordos aplicáveis e do modo real de produzir.
- mapear jornadas, turnos e horas extras
- identificar cobertura contínua e competências críticas
- medir demanda, capacidade, pausas e gargalos
- localizar sinais de fadiga e sobrecarga
- simular cenários sem comunicá-los como obrigação vigente
- definir como os efeitos serão acompanhados
Como acompanhar uma eventual transição
Antes da mudança, registre uma linha de base: acidentes, quase-acidentes, horas extras, absenteísmo, rotatividade, produção, erros, afastamentos, queixas de fadiga e fatores psicossociais relacionados ao trabalho.
Durante a implantação, acompanhe cobertura, ritmo, pausas, trocas de turno, sobrecarga, conflitos e incidentes. Depois, compare os indicadores e consulte os trabalhadores para verificar efeitos previstos e inesperados.
O acompanhamento não deve buscar apenas provar que a decisão funcionou. Ele deve revelar o que mudou, quais grupos foram beneficiados, onde surgiram novos riscos e quais controles precisam ser ajustados.
A decisão técnica vai além da disputa entre saúde e produtividade
Reduzir jornada pode favorecer recuperação, retenção e bem-estar. Também pode gerar custos e desafios diferentes entre setores. Tratar qualquer uma dessas conclusões como universal elimina justamente a análise que empresas responsáveis precisam fazer.
Os melhores resultados dependem de processos coerentes, dimensionamento, tecnologia, participação dos trabalhadores e gestão da mudança. Uma organização desordenada não se torna produtiva só porque reduziu horas; e uma jornada longa não garante produtividade sustentável.
Para o profissional de SST, a pergunta central é objetiva: a nova forma de trabalhar reduz as exposições ou apenas desloca o risco para ritmo, pressão, turnos e falta de pessoal?
Conclusão: a proposta avançou, mas prevenção não pode esperar pelo improviso
Em 29 de agosto de 2026, o fim da escala 6x1 foi aprovado pela Câmara, mas ainda não concluiu a tramitação no Senado e não está em vigor. Não há data certa para início enquanto não houver aprovação final e promulgação.
As evidências mostram que tempo de trabalho, fadiga e recuperação importam para saúde e segurança. Elas também mostram que a qualidade da reorganização é decisiva. Cinco dias de trabalho não são automaticamente saudáveis, assim como a escala, isoladamente, não explica todos os riscos.
Se a mudança constitucional ocorrer, empresas que revisarem capacidade, processos, ergonomia, fatores psicossociais e indicadores terão melhores condições de transformar a nova jornada em prevenção real — em vez de comprimir a mesma demanda em menos horas.
Perguntas frequentes
O fim da escala 6x1 foi aprovado?
Foi aprovado pela Câmara dos Deputados em maio de 2026, mas ainda precisa concluir a tramitação no Senado. Em 29 de agosto de 2026, a escala 6x1 continua permitida.
A escala 6x1 vai acabar em 2026?
Não há garantia. A proposta pode avançar em 2026, mas depende das votações no Senado e de eventual promulgação.
Quando começa o fim da escala 6x1?
Ainda não existe data de início. Se o texto atual for promulgado sem alteração, prevê uma primeira etapa após 60 dias e a jornada de 40 horas após o período de transição.
O salário será reduzido?
O texto aprovado pela Câmara prevê a redução da jornada sem redução salarial. A regra só terá eficácia se a proposta for definitivamente aprovada e promulgada.
Todo trabalhador terá sábado e domingo de folga?
Não necessariamente. Operações contínuas podem distribuir os repousos entre equipes, conforme o texto definitivo e as regras aplicáveis. A proposta prevê dois dias de repouso, com um deles preferencialmente aos domingos.
Hospitais e supermercados poderão funcionar todos os dias?
Sim. A discussão é sobre a jornada individual e os repousos dos trabalhadores, não sobre impedir o funcionamento contínuo de empresas e serviços.
O que acontece com a escala 12x36?
Regimes diferenciados precisam ser conferidos no texto final, na legislação e na negociação coletiva aplicável. Não é seguro antecipar uma regra definitiva antes do fim da tramitação.
A escala 6x1 causa burnout?
Não é correto estabelecer uma relação automática. Jornada e descanso podem participar da exposição, mas burnout e riscos psicossociais dependem de vários aspectos da organização do trabalho.
Trabalhar menos reduz acidentes?
Pode reduzir fatores ligados à fadiga e ampliar a recuperação, mas o resultado depende de como equipes, metas, pausas, turnos e processos forem reorganizados.
O fim da escala 6x1 muda o PGR?
Não automaticamente. Se a mudança alterar riscos, processos, equipes, ritmo ou organização do trabalho, a avaliação deve ser revista conforme o GRO.
Jornada pode ser fator de risco psicossocial?
A organização do tempo pode participar da exposição quando envolve pouca recuperação, baixa previsibilidade, sobrecarga, turnos inadequados ou demandas incompatíveis com os recursos.
Referências desta atualização
Informação conferida em 10 fontes em 29/08/2026.
- Câmara aprova em dois turnos fim da escala 6x1Câmara dos Deputados · publicado em 27/05/2026
- PEC 221/2019 — atividade legislativaSenado Federal
- PEC do fim da escala 6x1 já conta com relatório favorável na CCJSenado Federal · publicado em 27/08/2026
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